Painting

Description

O plano e a linguagem – o território poético
Sobre a importância da bidimensionalidade

A pesquisa plástica através do plano bidimensional utiliza como referência a mentira, a representação e a transitoriedade para discutir a criação do falso impresso sobre a superfície de uma imagem. O que não é tido como verdade e real encontra por meio do desenho e da pintura a forma ideal para discutir a representação e a noção da verdade e da mentira, do real e do irreal.
Essas questões estão relacionadas à teoria do simulacro e da simulação desenvolvida por Jean Baudrillard, filósofo e sociólogo da atualidade. Segundo ele, na simulação “já não existe o espelho do ser e das aparências, do real e do seu conceito” (Baudrillard, 2001). O estudo de tal teoria é concernente ao nosso tempo, pois põe à prova a noção do real e da verdade, do que é efeito da imitação ou de uma interpretação ideológica. Nesse campo de discussão, compreender a criação de imagens é fundamental para a compreensão dessa teoria, que desliza sobre a superfície dos valores morais e dos sistemas de símbolos presentes em nossa sociedade.
No espaço bidimensional é possível duvidar da concepção de verdade, real e realidade, na maneira como são impostas, pois sua condição de plano e superfície me permite criar uma falsa realidade a partir de uma distorção subjetiva de um dado real, usando para isso mecanismos operacionais que permitem essa interpretação. O bidimensional me confere uma potência para registrar tal experiência, pois o que é representado passa a existir como imagem e essa é inevitavelmente falsa, representando um dado real ou não.
A produção através do plano bidimensional problematiza a idéia do falso, da mentira e da irrealidade que para mim é intrínseco ao processo de criação e o modo como relacionamos com o mundo hoje.
Ao produzir as imagens em desenho e pintura busco como referência objetos próximos, banais e domésticos como também imagens de fontes diversas (que chamo de apropriações duchampianas), e mesmo da fotografia configuradas em um gesto de colagem virtual.
A mim interessa o objeto pelo seu significado, ou melhor, pelo significado que é possível alcançar a partir dele, a sua capacidade como símbolo, ícone.
O poder da imagem está conduzido pelo seu caráter de falso e contrasta com o que é verdadeiro no plano real, tridimensional. As imagens possuem caráter fotográfico, pois são enquadramentos parciais da realidade combinados em um achatamento próprio do bidimensional – são conceitos projetáveis e impressos sobre uma superfície.
Através da projeção de uma falsa realidade (realidade criada) sobre uma superfície é possível criar qualquer narrativa de acordo com os símbolos utilizados. O que determina a relevância da imagem não é a técnica, mas o referencial – o objeto cru, provido de um conceito, e sua capacidade relacional. Sua idéia e sentido serão finalizados por aquele que olha e busca a relação entre ele e sua experiência, como na produção contemporânea, o significado é oferecido segundo uma disposição intermediária entre a obra-objeto-imagem e seu receptor-pensante e finalizador da obra.
Posso dizer que o fio condutor de todo meu trabalho é esse trânsito de signos, símbolos e conceitos no espaço configurado em desordem e incertezas tentando ser organizado através de uma subversão da realidade. Acredito que toda criação parte de um processo de subversão de imagens e conceitos. Para mim, os objetos que nos relacionamos, os símbolos e ícones da nossa cultura são dotados de idéias e conceitos que nos personificam diariamente.
Na falta de uma mediação consistente e eficiente entre sujeito e espaço o trabalho se posiciona a partir do conflito entre o sujeito e os objetos-símbolos com os quais ele se relaciona.

Type
painting