Drawing

Description

O desenho e as palavras- pensamentos gráficos

O desenho surge da necessidade de se consumir – explorar o objeto graficamente.
O desenho atua como um estudo de processamentos de ideias e pensamento e é através dele que se dá a construção e elaboração de conceitos e práticas. “Entrevistado sobre a arte enquanto processo, Richard Serra diria que o desenho é um verbo: ‘There is no way to make a drawing, there is only drawing (…). Anything you can project as expressive in terms of drawing – ideas, metaphors, emotions, language structures – results from the act of doing’”.1 O desenho é um jeito de a ideia permanecer.
Os desenhos, juntamente com as anotações de caderno, a palavra e os escritos à máquina, funcionam como esboços de pensamentos, auxiliam na organização, como uma operação intelectual. Porém, por possuir valor de processo, um meio para se chegar a algo, não é inferior a pintura.
Não que a pintura ou a fotografia sejam a finalidade, mas, porque antes de a idéia se materializar em pintura ela se materializa em pensamento traduzido pelas palavras e desenhos. O desenho e a palavra são uma necessidade primária que antecede a pintura.
O processo também acontece de forma inversa, podendo a pintura ou o desenho sugerir as palavras, não como forma de ilustração, mas como objeto e elemento da pintura. A relação com a palavra é de extrema importância, vejo-a como um objeto de sedução. Às vezes determinando a pintura e, às vezes, agindo sobre ela.
Como escreve Merleau Ponty: “A palavra, longe de ser um simples signo dos objetos e das significações, habita as coisas e veicula significações. Naquele que fala, a palavra não traduz um pensamento já feito, mas a realiza. E aquele que escuta recebe, pela palavra, o próprio pensamento”. (CHAUI, 2005)
A palavra, isolada ou (des)organizada em frases, provida de força, sentido e significado no mundo real é usada como um instrumento parcial da realidade. Ao usar a palavra no meu trabalho quero seu sentido figurado. A palavra é metáfora. A palavra é metaforicamente – porque reverbera no tempo e no espaço. E o desenho e a pintura são metáfora da metáfora da metáfora da metáfora. “A linguagem não traduz imagens verbais de origem motora e sensorial nem representa idéias feitas por um pensamento silencioso, mas encarna as significações. As palavras têm sentido e criam sentido”, complementa Chauí.
O desenho, as frases e palavras, aparentemente deslocadas de seu sentido imediato, são matéria-prima desse jogo de idéias que estabeleço. Por isso nota-se predominantemente um desenho com áreas de cor bem demarcadas, seriação e sistemas com ênfase no conceito do objeto desenhado, pintado ou fotografado.

Existe mundo fora das representações?

As bonecas denotam a nulidade do ser humano. Sua presença me ajuda a pensar o indivíduo como uma representação – somos todos objetos – somos objeto para um sujeito que nos olha. É uma metáfora contemporânea para o mito de Narciso. Se Narciso morre por sua vaidade, olhando para seu reflexo, aqui o ser humano se transfigura em objeto: boneca, não para apaixonar-se por si e morrer, mas para ser obrigado a refletir acerca de sua construção, de suas referências imagéticas, do lugar que ocupa e dos mitos criados pela sociedade através desse objeto próximo, barato e banal.
Não sou eu o meu próprio eco, sou as coisas e os outros seres ao redor com os quais eu me identifico e reconheço. Assim entendo a realidade: como reverberação de coisas no tempo e espaço que ocupo. Esse espaço que pode ser físico e virtual e o tempo fragmentado em momentos não se localizam no passado nem no futuro, mas na confusão do agora.
Vejo os objetos e o espaço como experiências ontológicas – funcionando não como um espelho da realidade, mas como tentativa de restabelecer o mundo através da dúvida. “(…) Verdade e realidade parecem ser idênticas e quando essa identidade se desfaz ou se quebra, surge a incerteza que busca readquirir certezas”. (CHAUI, 2005).
Trabalhar a dúvida e as contradições recorrentes culmina em um mundo que se apresenta ao avesso, um mundo no qual as verdades e a concepção de realidade são passíveis de deslocamentos causando uma profunda e rica desordem cheia de novos significados e conceitos.
Vejo uma grande relação entre esse deslocamento que Picasso efetua sobre a realidade com o deslocamento conceitual posteriormente realizado por Duchamp ao transportar um urinol, elemento do cotidiano, para o campo da arte. Embora Duchamp o faça para trazer reflexões diferentes, me interessa o gesto irreverente de sua apropriação porque através dela transforma conceitos de ordens estabelecidos, como o da realidade – indagando acerca da funcionalidade do objeto, a do próprio objeto enquanto arte (a funcionalidade da arte) e a do artista, enquanto ser criador-propositor.
Refletindo sobre esse deslocamento do objeto de arte, do seu espaço e de sua autoria, percebo que esse gesto de Duchamp instabilizou não só o que havia sido construído de sagrado na arte até então como causou a instabilidade da própria identidade do artista, que não depende mais do ato de fazer, gerar e produzir, mas também de atribuir novo significante a algo que já possui significado. Tal revolução conceitual abre um vasto campo para pensar a arte desde então.
Valendo-me desse dado histórico também entendo minhas representações como deslocamentos da realidade, pois não as apreendo por completo e quero com isso contrastar com a realidade. Produzir uma realidade outra. Produzir ilusões, paisagens, mensagens, conceitos. A obra acaba sendo também fragmento, pois se compõe de pedaços que capto dessa realidade. Fragmentos do real, mas que querem alcançar o impossível da matéria através de sua transfiguração.

Type
drawing